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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DORMIR: "JUNTO ou SEPARADO"?

Dormir acompanhado reduz a qualidade do sono, dizem médicos.
JULIANA CUNHA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A bancária Maria Ângela Azevedo, 42, tem um segredo: ela e o marido dormem em quartos diferentes. O hábito começou há cinco anos, quando ele interrompeu um tratamento de apneia (suspensão da respiração durante o sono) pela quarta vez.
"O apartamento tem dois quartos. Dizemos que um deles é de visita, mas a verdade é que funciona como quarto do meu marido."
Nem a faxineira que limpa a casa sabe do arranjo. "Contamos para alguns amigos e todos acharam esquisito, então preferimos nos resguardar", diz Maria.
Avener Prado/Folhapress 
A secretária Lia Freire Chefaly, 50, é casada com o eletricista João Carlos Costa há 30 anos. Desde o primeiro mês de casados, os dois dormem separados
A decisão do casal não é incomum, nem seu constrangimento. "Cerca de 40% dos meus pacientes dormem em camas ou quartos separados. Quase nenhum admite isso para a família", diz a otorrinolaringologista e médica do sono Ângela Beatriz Lana.
Um adulto médio tem entre 20 e 30 microdespertares por noite, momentos em que o sono REM, mais profundo e restaurador, é interrompido e a pessoa volta a uma etapa superficial. Ao trocar de posição na cama ou ranger os dentes a pessoa chega a um estado de semiconsciência. Quase acorda, mas não percebe. Quanto mais microdespertares tiver, mais cansada vai levantar no dia seguinte.
"Dividir a cama chega a dobrar a quantidade de microdespertares. É muito romântico, mas um fracasso do ponto de vista da saúde", diz Maurício Bagnato, médico do laboratório do sono do Hospital Sírio-Libanês.
Insônia, ronco, apneia, discordâncias sobre a temperatura do ar-condicionado, horários diferentes para dormir e acordar, presença de TV e aparelhos eletrônicos no quarto são os problemas mais citados pelos casais que resolveram dormir separados.
A secretária Lia da Costa e o eletricista João Carlos da Costa dormem em quartos diferentes desde o primeiro mês de casados, há 28 anos. "Pensam que é falta de amor, mas não é. A gente faz tudo que um casal normal faz", afirma Lia.

João, 53 não ronca, mas gosta de fumar e assistir à TV durante a noite. Já Lia, 50, acorda assim que ouve o barulho. "Nas primeiras noites eu ficava esperando ele dormir para desligar a TV.
Quando desligava, ele acordava. Agora, até na casinha de praia, que só tem um quarto, ele prefere ficar na sala", diz.

Os filhos do casal acham o hábito estranho. "Eles sempre tiveram um pouco de vergonha disso, de pensarem que os pais não se gostavam."
HÁBITO RECENTE
Cultivar o próprio espaço também é razão frequente para a separação de corpos.
Juntos há 32 anos, os empresários Aurea Teodoro, 47, e Edmur Bastoni, 49, só não dividem a cama.
"A decisão foi tão natural que nem lembro de quem partiu. Somos pessoas independentes. Além disso, trabalhamos juntos. Ficar no mesmo quarto seria uma overdose", afirma Aurea.
Dormir junto é um hábito recente motivado, antes por necessidade do que por romantismo, explica Neil Stanley, médico do sono e ex-presidente da Sociedade Britânica do Sono.
"Quando a Revolução Industrial apinhou as pessoas em pequenos espaços foi inevitável que os casais passassem a dividir o quarto. Antes, os pobres dormiam todos no mesmo cômodo e os ricos tinham um quarto para cada um", disse ele à Folha.
"Hoje as pessoas dormem com cachorro, filho, parceiro. Pode anotar: a qualidade do seu sono cai 20% para cada ser vivo que você inclui debaixo do lençol", diz Stanley.

Segundo o pesquisador, se você divide uma cama de casal padrão, dorme com nove centímetros a menos de espaço do que uma criança sozinha num colchão infantil.
Luciana Palombini, do Instituto do Sono, acha exagerado incentivar casais a dormirem separados. "A companhia traz prejuízos ao sono, mas pode trazer benefícios emocionais. Dormir junto passa segurança e aconchego, o que é bom para tudo, inclusive para o sono."

"O casal perde momentos preciosos ao dormir separado", opina Cristiana Pereira, presidente do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo. "A rotina é tão perversa, cada um tem seu horário. Aquela conversinha gostosa antes de dormir é o contato mais significativo para muitos."
Segundo a terapeuta, compartilhar a cama também aumenta a frequência do sexo.
PIOR TRANSA
Já a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins discorda: "Relação íntima não depende de dormir junto. Por que o sexo funciona entre os amantes? Porque é agendado. Espontaneidade não funciona nesse assunto. Aquela transa que acontece quando um pé esbarra no outro é a pior de todas", diz.
Uma pesquisa da Universidade de Surrey, na Inglaterra, feita com 40 casais, chegou a resultados interessantes. No estudo, os casais dormiram juntos por dez dias e separados por outros dez.
O sono era monitorado por aparelhos e a cada manhã os voluntários eram convidados a classificar sua noite entre "boa", "razoável" ou "ruim". No fim da pesquisa, os aparelhos mostraram que as noites solitárias eram 50% melhores, em termos de qualidade de sono, mas os entrevistados diziam exatamente o contrário.
"Tudo que envolve o sono é muito individual", comenta Bagnato. "Do ponto de vista médico nós deveríamos dormir sozinhos. Mas quem são os médicos para escolher como uma pessoa dorme ou deixa de dormir?", conclui.
Lydia Megumi/Editoria de Arte

























FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1187818-dormir-acompanhado-reduz-a-qualidade-do-sono-dizem-medicos.shtml

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