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quarta-feira, 22 de julho de 2026
SÍNDROME DAS PERNAS INQUIETAS e os CANABINOIDES
Uma combinação de THC e CBD reduziu a gravidade dos sintomas da síndrome das pernas inquietas em um estudo clínico publicado no Journal of Neurology. Os resultados sugerem uma possível nova forma de uso terapêutico da Cannabis, mas ainda não permitem afirmar que os canabinoides possam substituir os tratamentos convencionais para a condição.
O trabalho acompanhou 18 pessoas durante três meses. Entre os participantes, 16 também tinham esclerose múltipla, doença que afeta o sistema nervoso central.
Após um mês de tratamento, os pacientes apresentaram melhora significativa na escala utilizada para medir a gravidade da síndrome das pernas inquietas. O benefício permaneceu ao final dos três meses de acompanhamento.
Alguns participantes continuaram usando o medicamento durante um ano, período em que a melhora também foi mantida.
A síndrome das pernas inquietas é uma condição neurológica caracterizada por uma necessidade difícil de controlar de movimentar as pernas.
A sensação costuma surgir ou piorar quando a pessoa está parada, sentada ou deitada. Os sintomas são mais frequentes à noite e geralmente melhoram com o movimento
Além da inquietação, os pacientes podem sentir formigamento, ardência, pressão, coceira interna ou sensações semelhantes a choques nas pernas.
Como os sintomas aparecem principalmente durante a noite, a síndrome pode dificultar o adormecimento, provocar despertares noturnos e causar cansaço ao longo do dia.
No estudo, os participantes receberam uma formulação contendo 2,7 mg de ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) e 2,5 mg de canabidiol (CBD).
O THC é conhecido por seus efeitos psicoativos, como alterações na percepção e euforia. Além disso, o composto vem sendo estudado por possíveis ações analgésicas, relaxantes musculares e reguladoras do sono.
O CBD não causa os mesmos efeitos psicoativos do THC. O canabidiol vem sendo estudado por possíveis ações anti-inflamatórias, anticonvulsivantes, ansiolíticas e neuroprotetoras.
O medicamento foi administrado por via oral. A dose podia ser ajustada depois de quatro semanas, de acordo com a resposta e a necessidade de cada paciente.
Antes do início do tratamento, os voluntários realizaram exames de sangue e uma avaliação da respiração durante o sono.
Os exames e questionários foram repetidos ao longo do acompanhamento. O objetivo era verificar possíveis mudanças nos sintomas, no sono, na sonolência e na qualidade de vida.
No início da pesquisa, os participantes apresentavam, na média, a forma mais grave da síndrome das pernas inquietas.
A intensidade foi medida pela Escala Internacional de Avaliação das Síndromes das Pernas Inquietas, IRLS na sigla em inglês.
Depois de um mês utilizando o medicamento à base de Cannabis, houve redução estatisticamente significativa nas pontuações da escala. O resultado se manteve após três meses.
Após um ano, 66% dos participantes permaneciam em tratamento com canabinoides e continuavam apresentando melhora na escala de sintomas.
Esse resultado sugere que o benefício pode ser mantido no longo prazo entre alguns pacientes. O estudo, porém, não esclareceu por que os demais participantes interromperam o tratamento.
Tratamento reduziu despertares noturnos
Os pesquisadores também avaliaram se o tratamento poderia melhorar o sono dos participantes.
Houve redução significativa no tempo que os pacientes permaneceram acordados depois de adormecer. Esse indicador é conhecido como “vigília após o início do sono”, ou WASO, na sigla em inglês.
Por outro lado, não foram encontradas mudanças no tempo necessário para adormecer, nem na eficiência do sono.
A eficiência do sono compara o período em que a pessoa permanece dormindo com o tempo total passado na cama.
Para realizar o estudo, os pesquisadores partiram da hipótese de que os compostos da Cannabis poderiam interferir em mecanismos biológicos envolvidos na síndrome das pernas inquietas.
Segundo os autores, os canabinoides podem reduzir a liberação de glutamato em algumas áreas do sistema nervoso. O glutamato é uma substância que participa da comunicação entre neurônios.
O excesso de atividade relacionada ao glutamato já foi associado à agitação e às alterações do sono observadas na síndrome.
Para os pesquisadores, outros efeitos, como a possível redução da rigidez muscular, do desconforto, da dor ou da ansiedade, também podem ter influenciado a percepção de melhora dos participantes.
Presença de esclerose múltipla exige cautela
É importante destacar que a maioria dos participantes do estudo tinha esclerose múltipla.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico ataca estruturas que protegem os neurônios. Isso pode provocar sintomas como alterações de sensibilidade, dificuldades motoras, fadiga, dor e rigidez muscular.
Pessoas com esclerose múltipla podem apresentar síndrome das pernas inquietas com maior frequência do que a população em geral. No entanto, sensações causadas pela doença podem se parecer com sintomas da síndrome.
Por isso, os resultados devem ser interpretados com cautela. Os benefícios não podem ser generalizados para todas as pessoas com síndrome das pernas inquietas, especialmente aquelas que não têm esclerose múltipla.
Os resultados do estudo oferecem uma nova perspectiva para o tratamento da síndrome das pernas inquietas utilizando um medicamento à base de Cannabis com composição e dose controladas.
O próximo passo deverá ser a realização de ensaios clínicos maiores, randomizados e controlados.
Esses estudos também precisarão esclarecer quais são a formulação e a dose mais adequadas e quais pacientes podem se beneficiar. Também será necessário investigar os riscos do tratamento prolongado.
No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica. Portanto, quem deseja incluir canabinoides no tratamento deve buscar orientação profissional.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar consultas presenciais ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.
https://www.cannabisesaude.com.br/cannabis-sindrome-das-pernas-inquietas/
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