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domingo, 4 de julho de 2010

MORTALHA

O psicólogo José Carlos da Silva Camargo, que atende dependentes químicos e familiares há 19 anos, aponta que a grande maioria dos pacientes narra que iniciou o vício por meio das drogas lícitas, como o tabaco e o álcool. ''Depois surge a maconha, que seria um passo a mais, uma identificação de um grupo, uma forma de autoafirmação.'' Segundo Camargo, já no segundo baseado o usuário começa uma linha de declínio. Para adquirir mais droga, ele vende os objetos pessoais. Depois vende bens dos familiares. Os próximos passos são mais degradantes.
O psicólogo faz um alerta aos pais sobre como a maconha tem sido divulgada como uma erva natural, que não prejudica o ser humano. Ele lembra que seu uso pode causar surtos psicóticos e até desencadear a esquizofrenia, para quem tem uma predisposição à doença. ''O que é comumente chamado de barato é a ação química que perturba todo o sistema nervoso central, desorganizando a percepção da pessoa, como faz o LSD e alguns cogumelos.''
Outra preocupação do especialista é a elitização da maconha - associação da droga com as pessoas que tem uma vida alternativa, que são chamadas de ícones da cultura brasileira. ''É um absurdo um artista ou político citar o uso da maconha como algo positivo. Alguns dizem que ela é uma erva natural, que não prejudica a saúde. Todas as drogas vêm da natureza. Elas são sintetizadas depois.''
"A maconha é porta de entrada. Em uma balada você vê as pessoas preparando o cigarro, usando o Pure Hemp, aquela 'sedinha' para enrolar o baseado, que os mais velhos chamam de 'mortalha'. Só que essa é de fibra de maconha, o que gera um atrativo a mais. As pessoas sempre estão sorrindo, se divertindo e enturmadas. Isso faz o adolescente querer fazer parte desse mundo.''
O depoimento é de César (nome fictício), 22 anos, que diz que começou a usar maconha aos 14 para tentar fazer amigos. Em poucas semanas o jovem já fumava seis cigarros diários. A tolerância crescente aos efeitos da maconha fez com que buscasse outras drogas, como a cocaína, o LSD e o ecstasy. Em menos de um ano estava gastando R$ 100 por dia para sustentar o vício.
Os pais do jovem agiram. Ele foi internado em uma clínica de recuperação e passou um ano em intensa terapia. Hoje, César faz parte dos Narcóticos Anônimos, e está há dois anos sem fazer uso de entorpecentes. (Fonte: Bruno Maffi-Folha de Londrina)

PAPEL DE MACONHA

Se anos atrás os usuários de maconha faziam seu baseado com papel comum ou guardanapo de boteco, o cigarro de hoje ganhou mais requinte. Comprado facilmente em postos de gasolina, tabacarias, bancas de revista e no Camelódromo, a maioria dos ''rolling smoking'' ou ''cigarette paper'' - papel de enrolar cigarro - é feito a partir das fibras do cânhamo, oriundo de uma planta do gênero Cannabis, o que, segundo consumidores, garante um baseado mais autêntico, sem a interferência do sabor de outras substâncias.
Tanto que as marcas mais conhecidas no mercado vêm com o selo ''Pure Hemp'', que traduzido para o português significa ''maconha pura''. Além do nome sugestivo, tem um custo acessível, em torno de R$ 5, em média, para cerca de 30 folhas.
As folhas são muito comuns nas rodas de maconha mais elitizadas. ''O Pure não queima a garganta como o papel normal e já vem no tamanho do baseado. Ele enrola melhor e, por ser feito de maconha, o cigarro fica puro'', conta César (nome fictício), de 22 anos, ex-usuário de drogas.
Diante do relato do ex-dependente, fica a dúvida: se no Brasil tanto o uso quanto o transporte e o plantio da maconha são considerados crimes, como fica a comercialização de produtos que usam a fibra da planta em sua composição? Isso porque, mesmo que seja o público alvo, a princípio, a finalidade do produto não seria para o uso da maconha, mas para qualquer tipo de fumo.
Os produtos aos quais a reportagem teve acesso são fabricados na Espanha, mas distribuídos por uma empresa brasileira com sede em São Paulo. Durante várias vezes a FOLHA ligou e deixou recados com a secretária para falar com o responsável, mas não obteve retorno. Em uma das tentativas, o diretor-geral, que não se identificou, chegou a atender, porém disse que não poderia dar entrevista, pois estava em uma reunião. Depois disso, o celular ficou desligado. 
Segundo o delegado da Polícia Federal em Londrina, Pedro Paulo de Figueiredo, o produto poderia ser apreendido se fosse comprovado que é fruto de contrabando - com entrada no país sem permissão - ou descaminho - quando não se paga imposto. ''Mas para o produto ser ilegal no país e enquadrado como entorpecente, por exemplo, o laudo pericial deve dizer que este causa dependência física ou psíquica.''
Assim como o papel que é feito da fibra do cânhamo, ele lembra que outros produtos importados têm a mesma origem, como camisetas, bonés, tênis. ''A fibra em si não causa dependência. Isso é que tem que ficar claro. Mas há a questão da apologia ao uso da droga presente nestas mercadorias. Entretanto, esse argumento é frágil para alguém responder criminalmente'', explica.
(Fonte: Marian Trigueiros e Bruno Maffi/Folha dde Londrina)